
Ele sentou num bom lugar pra esperar a noite cair, o Sol ainda brilhava forte sobre seus olhos enquanto ele não conseguia parar de pensar em como seria. De repente percebeu que tinha cochilado e a noite quase caíra sobre si, lentamente, mórbida, sutil e fria com o calor das noites de verão. Era setembro, as nuvens eram raras e Venus foi a primeira luz que surgiu depois do sol. As aves passavam, mas nada como o vento pra distrair aquele olhar, que pairava no horizonte, sobre a esperança de tê-la em seus braços uma única vez. As folhas dançavam com o vento, quando pôde sentir que devia olhar pro destino contrário. E viu. Sua luz cintilante como costuma ver, só que dessa vez mais forte. Era como se todos os pensamentos do mundo gritassem em seu ouvido, mas que surdo seria com tão esplendorosa luz. Via-se uma luz diferente saindo de lá, como um pequeno cometa branco (ou azul), que lentamente descera. Seus olhos lacrimejaram, parecia não acreditar no que acontecia, os enxugou com toda a força como se fosse pra acordar, mas com a pura velocidade e vontade de não perder nada daquele momento. Mal sustentavam suas pernas, os braços se abriram sem mesmo perceber, até que ela chegou. Parou flutuando em sua frente, teve medo, apesar do desejo. Ela era exatamente como sonhara, mas aqui estava viva. Suas bocas levemente sussurraram “meu amor”, e tentaram pela primeira vez se aproximar. Apesar de tudo ele custava a acreditar. O que diriam? Como provar o que estava acontecendo? Pensamentos tolos o seguiam e num instante decidiu se empenhar apenas em tê-la. Assim eles se tocaram, sua pele era macia, iluminada, levemente corada pela luz maior, seus cabelos eram negros como o espaço vazio e refletiam com brilho as pequenas estrelas da avenida de leite. Seu olhar era tímido, mas revigorante e percebeu que sugara tudo de bom sem dar nada em troca, e isso o fazia querer mais, se doar por inteiro a esse negro sol. E assim foi quando se abraçaram e pode ver seu primeiro sorriso. Lembrou da primeira vez que olhara pra ela, da janela do seu quarto, iluminando sua cama, era como se as mais belas melodias fossem tocadas e seu corpo inteiro experimentara a alegria de viver e viver feliz. Sem nunca se falar, sem combinar nada, deram um beijo pra selar o que estava escrito. Não consigo descrever seus sentimentos nessa hora, mas posso dizer que nunca houve maior alegria. Ela sensata, em meio a excitação do momento, lembrou de te dar o presente que trouxe, pra ele lembrar dela mesmo de dia, uma pedra(coisa que mais tem em seu lar) branca, que guarda a luz. Ele apesar de não combinarem, trouxe algo pouco romântico e mal pensado. Três sementes de rosas e uma garrafa de água. Passou o resto da semana lamentando por esquecer-se de dar o ar. Mas mesmo assim ela aceitou, pela leveza da semente que apesar de não estar viva, carrega a esperança de nascer. Contou sobre a Terra, deitaram na grama e planejaram a vida juntos (mesmo não sendo possível). Teriam três filhos, o primeiro seria Jorge, por derrotar dragões em seu lar, além de estar sempre com ela, defendendo do perigo. Após viria Luna, seria simplesmente a figura da mãe com ele, cresceria feliz e seria uma grande astronauta pra poder levar seu pai até o satélite maior. E o mais novo era Pedro, um geólogo ou geógrafo, que estudara as leis da terra e suas interações, cavaria ao centro da terra e encontraria um único lugar onde seus pais pudessem viver juntos, com sua bela família. E lá viveriam, teriam um jardim com belas flores e uma coleção de pedras coloridas que guardam luz, teria um campo onde correriam todos os dias de mãos dadas e um riacho pra ele salva-la do afogamento fingido e cantar “meu herói!”. Conversaram tanto, planejaram ficar ali até o sol se mostrar, mas ela estava cansada, foi uma viajem exaustante. E ele ali, apesar de estar a dois dias acordado, não conseguia parar de olhar pra ela, admira-la e guardar seu rosto na memória pra jamais esquecer o que haveria de ver somente esta vez. Mas também estava cansado, seu coração nunca bateu tão forte por tanto tempo. Até que acordou com o primeiro raio de sol em seu rosto, assustou lamentando-se ter dormido e não se despedir. Gritou seu nome o mais alto que podia, mas a luz do sol mostrava apenas a face pálida da Lua. E em sua mão apenas a lembrança do que realmente foi real, brilhava quase tão quão ela brilhava nas noites mais escuras. Deitou novamente na noite seguinte, na outra e em muitas outras pela frente, mas ela só viria uma vez. Tornou pra sempre arrependido de ceder ao sono, e assim passava quase todas as noites acordado, com a pedra na mão.
Conta pra mim o que te fez chorar?
Foi o sol se esconder mais cedo, ou a noite demorar pra chegar?
Foi seu medo, calor e desejo ou a simples vontade de ficar?
Agora conta pra mim o que te faz feliz?
A lua, a rua, um doce, um beijo, uma noite escura com estrelas claras, abraço apertado, nadar no calor, uma cama quentinha, chocolate quente? O que te faz feliz? Sair com os amigos, beber uma gelada, rir da piada, jogar conversa fora, fazer fofoca, ficar acordado, nostalgia, brincar na terra, plantar flores, correr na chuva, beijar na chuva, deitar na chuva, fazer qualquer coisa junto e na chuva? O que te faz feliz? Ouvir uma história que faça sentido na vida, ou uma simples estória engraçada, fazer cosquinha, levar cosquinha, guerra de coquinho, fazer o gol, correr mais rápido, ralar o joelho e rolar de rir caído no chão, olhar pra ela (lua ou não), fazer carinho em seu cabelo, acordar tarde, dormir tarde, dançar até doer as pernas, correr abraçado, conhecer os Alpes, as praias, os segredos dos sete mares, encantar pessoas, fazer xixi escondido, ganhar um beijo da mãe, subir nas costas do pai, um carro novo, uma roupa nova, uma droga nova, uma novela nova(droga), um dinheiro novo? O que te faz feliz? Catar o lixo, ajudar a velhinha, conversar com o mendigo, fazer um curativo, fazer café pra sua mãe, acordar com um beijo, ver fotos antigas, tirar fotos novas e poder realizar? O que me faz feliz é o que te faz feliz? Eu procurava entender, eu procurava encontrar os sinais deixados no chão. Mas só agora entendi que a vida não um jogo de palavras cruzadas, onde tudo se encaixa. O que será que ela quis dizer, com cinco letras, começando com “A”? A _ _ _ _.